Conceitos Financeiros e Contábeis

Por que o critério de movimentação contábil PEPS geralmente não é utilizado?

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Fonte da imagem: https://www.pexels.com

No processo contábil existem alguns critérios de movimentação de estoque que apresentam características distintas e impactam de maneira diferente os relatórios financeiros das empresas.

Para compreender as diferenças entre eles, imagine uma loja que no mês de janeiro tenha comprado uma unidade de mercadoria para revenda, pagando R$ 150,00 e a manteve em estoque por acreditar na possibilidade de ocorrer grande valorização nos próximos meses.

No mês seguinte, apensar de ter ocorrido o aumento nos preços, a expectativa de futuras valorizações se manteve. Diante desta situação, a empresa adquire outra unidade pelo valor de R$ 200,00, sem efetuar qualquer venda.

No início de março deste mesmo ano, os preços continuam a subir e a loja resolve adquirir mais uma unidade, agora pelo valor R$ 400,00.

No final deste mês, ocorre a primeira venda de uma das três unidades em estoque e o preço de venda negociado foi de R$ 600,00. Diante desta situação, qual é o lucro apurado pela empresa nesta negociação?

Neste caso, o resultado da operação pode ser analisado por três perspectivas distintas, sendo elas:

  • A mercadoria vendida foi a primeira adquirida. Com isso seria apurado o seguinte resultado:

PEPS

Nesta situação, como o valor pago pela mercadoria vendida foi R$ 150, o lucro na operação seria de R$ 450,00, enquanto em estoque permaneceriam duas unidades com valor total de R$ 600,00 (uma unidade de R$ 200 e outra de R$ 400).

  • A mercadoria vendida foi a última adquirida. Neste caso, o resultado apurado seria:

UEPS

Como o valor pago pela mercadoria vendida foi R$ 400, o lucro apurado na operação seria de R$ 200,00, enquanto em estoque permaneceriam duas unidades com valor total de R$ 350,00 (uma unidade de R$ 150 e outra de R$ 200).

  • Não importa qual mercadoria foi adquirida primeiro. A empresa tem em estoque três unidades que foram compradas pelo valor total de R$ 750,00 e, portanto, cada uma tem custo médio de R$ 250. Assim, o seguinte resultado seria encontrado:

CM

Considerando o valor médio pago pela mercadoria de R$ 250,00, o lucro na operação seria de R$ 350,00, enquanto em estoque permaneceriam duas unidades com valor total de R$ 500,00 (duas unidades com custo médio de R$ 250,00).

 

Neste exemplo pode-se observar que, dependendo do critério adotado, são apurados três valores diferentes de custo, lucro e estoque, conforme tabela abaixo:

Metodos

Estão as diferenças encontras entre os três principais critérios de movimentação de estoques, sendo eles:

  • PEPS – Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair: quando a empresa utiliza este critério, o primeiro item a ser baixado contabilmente do estoque é o mais antigo e posteriormente os que foram adquiridos mais recentemente. Em inglês é chamado de FIFO – First In, First Out;
  • UEPS – Último a Entrar, Primeiro a Sair: ao utilizar este critério, são baixados contabilmente do estoque primeiramente os materiais adquiridos mais recentemente e, em seguida, os mais antigos. Em inglês é conhecido como LIFO – Last In, First Out;
  • Custo Médio Ponderado: Neste caso, todos os itens em estoque apresentam o mesmo valor unitário, sendo este calculado pelo custo médio de aquisição. Assim, é indiferente a escolha da unidade a ser baixada contabilmente do estoque. Deve-se observar que ao utilizar este critério, a cada nova aquisição, todo o custo unitário deve ser recalculado pois a nova entrada, provavelmente, alterará  o valor da média.

Um engano comum na análise destes critérios contábeis é tentar fazer a sua relação com movimentações físicas de estoque, as quais podem ser influenciadas por diversos fatores, tais como, validade e obsolescência. Isto pode fazer com que os processos não sejam os mesmos.

Na verdade, mesmo fisicamente, podem ser encontrados produtos que impedem a realização de qualquer tipo de controle físico de movimentação por ordem entrada. Como exemplo, suponha que uma matéria prima adquirida seja líquida e armazenada em um único tanque. Neste caso, é impossível fazer qualquer distinção em relação ao momento de aquisição e a saída do estoque, mas, a sua movimentação contábil continuará seguindo o critério contábil definido.

 

Por que o PEPS geralmente não é utilizado?

O Brasil é um país tradicionalmente inflacionário, o que faz com que as últimas aquisições das empresas tendam a apresentar valores maiores que as anteriores.

De acordo com esta realidade e tomando como parâmetro os exemplos comentados, pode-se concluir que a utilização do método UEPS (Último a Entrar, Primeiro a Sair) levaria a um custo contábil maior e, consequentemente, à apuração de menor lucro.

Assim, devido ao menor lucro na operação, este critério geraria postergação do pagamento de tributos sobre o lucro em diversas empresas (dependendo do regime tributário adotado). Esta situação justifica o fato deste método não ser aceito pela legislação fiscal brasileira.

Em virtude desta situação, resta para as empresas a escolha entre o critério PEPS (Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair) e o custo médio ponderado.

Seguindo a mesma lógica, a utilização do PEPS em um país inflacionário tende a diminuir o custo contábil das mercadorias, uma vez que seriam baixadas do estoque as mercadorias adquiridas há mais tempo. Assim, neste caso, a tendência seria gerar a antecipação do pagamento de tributos sobre o lucro.

Desta forma, em virtude das características descritas, normalmente as empresas descartam a utilização do critério PEPS e optam pelo uso do custo médio ponderado como método de movimentação contábil de estoques.

 

Sobre o autor:

Louremir Reinaldo Jeronimo é  Doutor em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP. Professor convidado dos cursos de MBA do FGV Management e FGV In Company (Saiba mais)

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10 respostas »

  1. Com certeza Prof. Louremir, explicação bem clara e objetiva. Apenas acrescentando que o PEPS é utilizado, mas, somente para o aspecto físico de materiais, visto a necessidade do controle de lotes para a rastreabilidade, visando normas e certificações de qualidade e devido as facilidades de TI que temos atualmente. Contabilmente por força de normas e regras (Absorção, CFC-16) a aplicação do médio ponderado, para a valoração de saídas e para o item físico sai primeiro aquele primeiro que entrou, por questões de validade. Quanto a itens que possam ser misturados, atualmente não se faz mais isso na prática, conservando-se separadamente em lotes. Muito bom o texto e bem lembrado.

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  2. Olá Januário. Muito obrigado pelas suas observações e complementos que, com certeza, enriqueceram o conteúdo proposto. Apenas gostaria de complementar sobre itens que podem ser misturados. Apesar de realmente a grande maioria dos negócios já não possuir esta prática, ainda podem ser encontrados alguns casos como o de gasolina em um posto de combustível. De qualquer forma, estamos de acordo que não seja o padrão mais encontrado. Até logo!

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  3. Eu quem agradeço Prof. Louremir. É fato, sempre temos as exceções que nem tudo possamos fazer na prática, muito bem lembrado o exemplo do armazenamento de combustíveis. São esses textos que nos enriquecem, preenchendo as lacunas que as literaturas deixam de abordar.

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