Análises Gerenciais

As Empresas Não Quebram Pelo Prejuízo! Analisando Negócios pelos Regimes de Caixa e Competência

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Fonte da imagem: https://www.pexels.com

Suponha duas empresas com operações distintas. A primeira atua no mercado há muito tempo, mas está apurando R$ 50.000,00 de prejuízo mensal, de maneira recorrente. A segunda, em situação diferente, acabou de iniciar a sua operação e logo no primeiro negócio adquiriu uma mercadoria pelo valor de R$ 1 milhão, a qual revendeu por R$ 6 milhões no dia seguinte, gerando lucro de R$ 5 milhões.

A situação de recorrência de prejuízos da primeira empresa revela algo muito importante a ser analisado para que medidas corretivas sejam tomadas. No entanto, se esta companhia tiver R$ 50 milhões em caixa, este resultado poderá ser mantido por, no mínimo, 1.000 meses sem que sua operação fique comprometida. Neste caso, o prejuízo tem baixo potencial imediato de gerar insolvência devido à excelente situação de caixa.

Por outro lado, analisando de maneira mais detalhada a negociação realizada pela segunda empresa, imagine que tenha adquirido a mercadoria para pagamento em 30 dias e a revendido para recebimento em dois anos. Neste caso, mesmo com o excelente resultado, a companhia pode passar dificuldades financeiras ou até encerrar suas atividades se não possuir recursos adicionais suficientes para a manutenção do negócio durante todo este período.

Estes exemplos demonstram duas formas distintas de visualizar o resultado de um negócio, a apuração pelo regime de competência e de caixa.

No regimente de competência, as receitas são reconhecidas no momento em que são geradas, assim como, todos os custos ou despesas à elas vinculados devem ser apresentados no mesmo período. Neste caso, não importam as datas de recebimento ou pagamento, apenas a geração e consumo.

Ao analisar uma empresa pelo regime de competência, busca-se compreender a sua capacidade de criação de resultado em cada um dos períodos.

De maneira distinta, no regime de caixa, o que interessa é o momento em que as receitas são recebidas e os custos e despesas pagos, independentemente de sua geração ou consumo.

Imagine uma empresa que revenda, no mês de janeiro, uma mercadoria por R$ 1.000, a qual tenha sido adquirida no mesmo período por R$ 600. Considere ainda que a venda foi realizada à vista e a aquisição com 30 dias de prazo.

Nesta situação, pelo regime de competência, seria apurado o seguinte resultado:

Competencia

De maneira distinta, pelo regime de caixa, seria observada a seguinte estrutura:

Caixa

Como se pode observar, os resultados apurados na operação podem ser totalmente diferentes ao utilizar o regime de competência ou de caixa.

Uma possível dúvida decorrente dos conceitos apresentados é se uma empresa que tenha um bom saldo de caixa deve se preocupar em analisar o resultado pelo regime de competência.

Na verdade, é muito importante a análise dos resultados de acordo com ambos os regimes, tanto no planejado quanto realizado.

Para garantir a continuidade dos negócios, não se deve simplesmente ignorar a apuração pelo regime de competência, pois, a geração contínua de resultados negativos tende a, paulatinamente, reduzir o caixa da empresa até chegar à uma situação crítica.

Deixar de analisar o resultado de um negócio pelo regime de competência é um engano gerencial, pois, é através dele que se pode compreender a natureza do negócio, ou seja, entender se a empresa tem um produto ou serviço lucrativo e, caso contrário, avaliar onde está localizado o problema a ser enfrentado para reverter a situação.

Outro ponto a ser destacado é que um elevado saldo de caixa pode mascarar ineficiências na operação e fazer com que ocorra a manutenção de negócios com resultados insatisfatórios ou mesmo inaceitáveis.

Desta forma, para uma boa gestão empresarial, a análise deve ser realizada através da apuração de resultado tanto pelo regimento de competência quanto de caixa, pois suas informações são necessárias e complementares.

Apesar da importância da análise por ambos os regimes, no curto prazo, a continuidade dos negócios depende da situação de caixa da companhia. Isto é o que justifica o fato de diversas empresas, principalmente em início de operação, manterem as suas atividades normalmente mesmo com uma sequência de resultados negativos, ou seja, investidores com expectativa de reversão futura e valorização do negócio fornecem caixa suficiente para continuarem as suas operações.

 

Sobre o autor:

Louremir Reinaldo Jeronimo é  Doutor em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP. Professor convidado dos cursos de MBA do FGV Management e FGV In Company (Saiba mais)

 

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10 respostas »

  1. Muito bom o artigo Dr. Louremir. É possível também que a empresa que apresenta prejuízo de 50 mil por mês nunca se encontre numa situação de insolvência caso esta tenha uma depreciação/amortização muito alta, ainda mais se a taxa utilizada para esses fins for maior que a real depreciação dos bens. No momento em que a depreciação/amortização encerrar esta tende a apresentar lucro. Estou certo? Parabéns pelo artigo novamente, abraço.

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  2. Luiz, não se esqueça que a depreciação lançada se presta a criar reserva de caixa para recomposição dos ativos, portanto, não conte com esse caixa para compensar prejuizos, pois, será utilizado em investimentos muito prováveis no futuro.

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