Análises Gerenciais

Fluxo de Caixa Orçado: Uma Atividade da Controladoria ou Tesouraria?

Orcamento Empresarial Fluxo de Caixa Tesouraria

Fonte da imagem: Photo by rawpixel.com from Pexels

Uma dúvida comum sobre o fluxo de caixa orçado se refere à área responsável por sua preparação. Isto ocorre pois existem projeções elaboradas tanto pela controladoria quanto pela tesouraria.

Apesar de serem observadas duas projeções em diversas empresas, não há atividades duplicadas ou redundantes. Isto ocorre porque a controladoria elabora um fluxo de caixa durante o processo de orçamento empresarial, o qual tem objetivos, estrutura e processos distintos do preparado pela tesouraria.

Existem diversos objetivos para a elaboração do orçamento empresarial, dentre eles, possibilitar a visualização das consequências financeiras em decorrência da execução dos planos elaborados pelas áreas. Na verdade, a sua utilização permite que sejam observadas tendências, possibilitando correções de rumos antes que a empresa passe a ter dificuldades em sua operação.

A análise do fluxo de caixa orçado, preparado pela controladoria, é muito importante pois a demonstração de resultado do exercício (DRE) orçada, isoladamente, pode deixar de evidenciar situações de risco de negócio, uma vez que suas dificuldades podem não ser derivadas de prejuízos, mas sim de ausência de caixa.

A projeção do fluxo de caixa elaborado pela tesouraria tem como objetivo identificar situações de desencaixe mais imediatas. Neste caso, a sua importância se encontra na necessidade de atuar para equilibrar pagamentos e recebimentos do dia a dia, ou verificar o período disponível de sobras de caixa para planejar aplicações financeiras mais adequadas.

Existem diferenças nas estruturas dos relatórios elaborados em cada uma das áreas. No caso do fluxo de caixa preparado no orçamento empresarial, a abertura costuma ser em meses ou no máximo semanas, com projeção de um ou mais anos. Por outro lado, no relatório elaborado pela tesouraria, a abertura é diária e a amplitude de visualização costuma ser de uma semana ou quinze dias.

Por fim, há grande distinção entre os processos de projeção de cada área. O fluxo de caixa orçado, preparado pela controladoria, é derivado da consolidação dos planos preparados por todas as áreas da empresa com o objetivo de visualizar se o resultado do conjunto é adequado para as expectativas da empresa. A sua preparação ocorre uma vez por ano, mas com revisões periódicas que costumam ser mensais ou trimestrais. Desta forma, a elaboração deste relatório é um processo de planejamento coordenado que envolve praticamente todas as áreas da empresa.

Por outro lado, a preparação do fluxo de caixa pela tesouraria costuma ser diária e com interações mais restritas. O seu processo geralmente tem início com a extração das projeções de contas a receber e a pagar registradas nos sistemas de controle empresarial.

Apesar dos valores de contas a receber e a pagar serem o ponto de partida para a preparação deste fluxo de caixa, suas informações não são suficientes. Existem diversos dados adicionais que são necessários, pois, diariamente são observadas operações que impactam o caixa e que podem não ser visualizadas no contas a pagar ou a receber no momento de sua elaboração, tais como:

  • Recebimentos de vendas à vista: caso existam vendas com condições de recebimentos à vista em sua totalidade ou parcialmente, na elaboração do fluxo de caixa deve ser considerada a previsão destas entradas de caixa;
  • Pagamentos de compras à vista: caso existam compras com condições de pagamento à vista em sua totalidade ou parcialmente, também deverão ser consideradas as previsões destas saídas de caixa;
  • Negociações de valores a receber: caso existam negociações de valores a receber, vencidos ou a vencer, as informações geradas pela previsão de contas a receber serão parciais ou equivocadas, sendo necessário ajustá-las;
  • Negociações de valores a pagar: caso existam negociações de valores a pagar, vencidos ou a vencer, estas também deverão ser ajustadas nas previsões de saídas de caixa;
  • Pagamento de parcelas de contratos: é comum a existência de negociações contratuais onde pagamentos são vinculados a entregas específicas. Em casos como este, ao cumprir a execução, a área responsável solicita pagamentos que podem não estar registrados no contas a pagar no momento de elaboração do relatório;
  • Previsão de tarifas e encargos bancário: é comum que estes valores não sejam registrados nos sistemas de contas a pagar, sendo necessário incluí-los nas saídas de caixa.

Alguns destes exemplos podem não ser visualizados no fluxo de caixa do orçamento empresarial elaborado pela controladoria, pois costumam ser considerados em contas agregadas que refletem de maneira macro os seus efeitos no caixa da empresa.

Por fim, pode-se concluir que podem existir dois fluxos de caixa orçados em uma mesma empresa, um elaborado pela controladoria e outro pela tesouraria. Estes relatórios são distintos, pois têm objetivos, aberturas e estruturas diferentes, mas complementares no apoio ao processo de gestão empresarial.

 

Sobre o autor:

Louremir Reinaldo Jeronimo é  Doutor em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP. Professor convidado dos cursos de MBA do FGV Educação Executiva e FGV In Company (Saiba mais)

 

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2 respostas »

  1. Prof. Louremir, muito bom artigo. Permita-me adicionar um comentário: entendo que um recurso simples e assertiva para elaborar o FC orçado é utilizar o Ciclo Operacional, dessa forma é possível estabelecer os prazos médios de recebimentos e pagamentos, auxiliando muito na elaboração do relatório de FC orçado.

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    • Olá Jeferson! Com certeza utilizar prazos médios é um método interessante, principalmente para orçamentos de longo prazo. O entendimento do Ciclo Operacional e Financeiro do negócio é extremamente importante para garantir a saúde financeira da empresa. Obrigado pela sua contribuição!

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