Análises Gerenciais

Como calcular o percentual de aquisição de uma startup

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Fonte da imagem:https://stocksnap.io/photo/QB5O1HU0QX

No Brasil tem crescido a atuação de “investidores anjo” na aplicação de recursos em empresas que estão iniciando as suas operações, as chamadas startup. Este tipo de investidor é uma pessoa física que está disposta a disponibilizar os seus próprios recursos em negócios que estão nascendo, mas que apresentam alto potencial de crescimento. Esta é uma fonte de recursos fundamental para que novos negócios surjam e se consolidem.

Neste processo de negociação, duas definições são muito importantes. A primeira é o valor do aporte necessário na nova empresa de modo que seja possível o seu crescimento de forma sustentável e a segunda o percentual da participação a ser adquirida pelo investidor.

O percentual da startup que os empreendedores deverão ceder aos investidores dependerá do valor atribuído por estes à empresa, o que basicamente reflete a sua expectativa futura quanto ao negócio, associada à sua meta de retorno para os recursos a serem aplicados.

Para realizar a apuração do percentual de aquisição a ser negociado, são necessários dois fatores. O primeiro é a elaboração da projeção dos resultados futuros, momento onde se torna fundamental a existência do orçamento do planejamento estratégico do negócio considerando as projeções de longo prazo que possibilitem a sua previsão. O segundo é a taxa de desconto de desconto a ser utilizada pelo investidor para calcular a expectativa de valor do negócio.

Existem duas principais abordagens para analisar fluxos de caixa, sendo a primeira, a mais tradicional, onde as projeções futuras são descontadas com base em uma taxa de retorno estimada para investimentos de risco semelhantes, ou seja, considerando o custo de oportunidade do capital a ser investido, enquanto o segundo método considera os fluxos de caixa otimistas ou desejados os quais são trazidos a valor presente utilizando taxas de retorno também otimistas. No caso cálculo de participações de startups a serem adquiridas, este segundo normalmente é o método mais indicado de utilização.

Neste procedimento de cálculo, os fluxos de caixa previstos são aqueles onde se considera que os planos aconteçam exatamente como planejado, ou seja, tomando uma perspectiva otimista, geralmente observada nos empreendedores.

Ao contrário de outros tipos de projeções de negócio, neste caso, os investidores incentivam a elaboração de projeções que utilizem cenários otimistas pois estes acabarão sendo compensados pela taxa de desconto a ser utilizada na avaliação e, além disso, geram metas ambiciosas a serem colocadas para a empresa após a aquisição da participação.

Estas taxas de desconto variam de acordo com o estágio de desenvolvimento da empresa a ser adquirida, existindo trabalhos que fazem referência à taxas a serem utilizadas na análise de startups que podem variar de 50% a 100% ao ano.

Estas elevadas taxas são necessárias pois nem sempre o investimento realizado tem sucesso e, neste caso, todo o recurso disponibilizado pode ser perdido. Desta forma, sobre a perspectiva deste investidor, o empreendimento de sucesso tem que gerar retorno suficiente para cobrir eventuais perdas em outros projetos e atingir a rentabilidade mínima desejada para o seu negócio como um todo. Um outro ponto que pode contribuir para a aplicação de altas taxas de rentabilidade é o fato que, em muitas situações, o investidor acaba disponibilizando outros tipos de recursos para a investida tais como orientações de negócio, consultoria ou mesmo acesso à rede de contatos, pontos estes que podem ter grande valor.

Um exemplo de definição de percentual de aquisição de uma startup

Para ilustrar a metodologia de cálculo envolvida neste tipo de avaliação, suponha uma startup que atua no segmento de tecnologia  e onde os empreendedores investiram o montante de R$ 200.000 para a sua criação.

Atualmente, devido ao sucesso de seu negócio, esta empresa passa por um período de grande crescimento e necessita de R$ 1.000.000 de investimentos para continuar o ritmo de sua expansão.

Um investidor, vendo o grande potencial do negócio, está disposto a ceder os recursos. Neste momento surge a dúvida neste tipo de operação, sobre o percentual de participação na empresa que deverá ser negociado com o investidor em troca do aporte.

Para responder à esta pergunta, inicialmente, deve-se conhecer as expectativas de retorno daqueles que irão disponibilizar o capital. No caso, devido às características do investimento, considere a exigência de uma taxa de rentabilidade anual de 50% além de uma previsão de 5 anos de período de payback, tempo de retorno do capital investido em suas aplicações.

Com estas informações pode-se calcular o valor futuro que este investidor espera retirar referente à sua aplicação:

Valor de investimento: R$ 1.000.000

Prazo de investimento: 5 anos

Taxa exigida na operação: 50% a.a.

Valor futuro = 1.000.000 x (1+50%)^5

Valor futuro = 7.593.750

Desta forma, com base nestes dados, sabe-se que para realizar esta aquisição o investidor espera que em cinco anos possa resgatar R$ 7.593.750.

A próxima etapa no processo de cálculo da participação a ser negocia é a apuração do valor esperado da empresa a ser adquirida, após os 5 anos.

Um método de avaliação do valor da empresa que pode ser utilizado neste caso é prever a sua capacidade de geração de resultados, conhecido como EBITDA (earnings before interest, taxes, depreciation and amortization, conceito que pode ser traduzido para o português como LAJIDA, ou seja, lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização), e aplicar a estimativa por múltiplos. Neste momento é de extrema relevância a existência de um orçamento do planejamento estratégico para empresa visando dar suporte às projeções a serem utilizadas na avaliação.

Desta maneira, suponha que os investidores, pelas características do mercado de atuação da empresa, considerem que o seu valor seja representado por um múltiplo de 6 vezes o seu EBITDA e que este valor – apurado através do orçamento do planejamento estratégico – seja de R$ 3.000.000. Assim, no momento de sua expectativa de saída do negócio, o valor esperado da empresa pode ser calculado da seguinte maneira:

EBITDA esperado em 5 anos: R$ 3.000.000

Múltiplo EBITDA: 6 X

Valor futuro da empresa: R$ 18.000.000

Tendo apurado o valor esperado ao final de 5 anos, o próximo passo será encontrar o valor para os acionistas. A diferença é que do valor apurado anteriormente deve ser descontado o passivo oneroso da empresa, sendo que a sua previsão também estará embasada nas projeções elaboradas pelo orçamento do planejamento estratégico.

Suponha que a expectativa seja de que a empresa tenha ao final dos 5 anos, de acordo com as suas projeções, um passivo oneroso no valor de R$ 2.000.000. Assim, o valor para os acionistas pode ser apurado da seguinte maneira:

Valor futuro da empresa: R$ 18.000.000

Valor do passivo oneroso: R$ 2.000.000

Valor para os acionistas: R$ 16.000.000

De acordo com o planejamento estratégico elaborado para a startup, o valor para os acionistas, após o período de 5 anos, será de R$ 16.000.000. Como os investidores, para realizar o aporte de R$ 1.000.000, esperam retirar após este período R$ 7.593.750, pode-se encontrar o percentual de participação a ser negociado:

Percentual de aquisição = 7.593.750/16.000.000

Percentual de aquisição = 47,46%

Desta forma, na eventual negociação do aporte de recursos em troca de participação acionária na startup, o percentual a ser transferido para os investidores é de 47,46%.

Na verdade, do ponto de vista do investidor, esta é a participação mínima a ser aceita em troca do aporte de recursos e ele provavelmente solicitará um percentual maior da empresa. No entanto, durante a negociação sempre estará consciente de que seu limite para fechar o negócio é de 47,46%.

Deve-se observar que este é um processo de avaliação que envolve elevado grau de risco e, desta maneira, uma ferramenta indicada para apoiar a avaliação é a simulação de monte carlo.

Como resumo do processo de apuração do percentual de negociação pode-se citar o seguinte roteiro:

  1. Indicação do percentual de retorno esperado pelo investidor para aplicar seus recursos no negócio;
  2. Definição do tempo de permanência do investidor na empresa;
  3. Apuração do valor de retirada esperado pelo investidor ao final do tempo de permanência, considerando o total do investimento a ser realizado e a taxa de retorno estimada;
  4. Apuração do valor da empresa e para os acionistas na data estimada de saída do negócio;
  5. Apuração do percentual de participação da empresa a ser negociada com base na retirada esperada pelos investidores e o valor para os acionistas, ambos projetados para a data de saída.

 

Saiba mais:

Saiba mais sobre simulação de Monte Carlo e orçamento

Saiba mais sobre orçamento do planejamento estratégico

Alguns pontos importantes no planejamento financeiro de startups

Prof. Dr. Louremir R. Jeronimo

 

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