Análises Gerenciais

Índices de Liquidez – Avaliando a Capacidade de Pagamento

Indices de Liquidez Orçamento Empresarial

Fonte da imagem: https://www.pexels.com

O principal objetivo para a realização de uma análise econômico financeira empresarial é avaliar seu desempenho, seja de maneira evolutiva em relação aos próprios resultados ou mesmo comparativamente a outras empresas.

Esta análise de desempenho pode envolver crescimento de receita, controle de despesas e custos, capacidade de pagamento, endividamento, entre outros.

Pode-se entender a análise econômica como sendo a realizada sobre o resultado contábil (apurado pelo regime de competência) e a financeira aquela elaborada sobre a situação de caixa (baseada no regime de caixa).

Uma análise econômico financeira não deve ser entendida como exclusivamente embasada em resultados passados. Na verdade, é importante que este estudo seja feito também de maneira preditiva, ou seja, com base no orçamento empresarial o qual tem como um de seus papéis mais importantes apoiar as definições estratégicas da organização.

Existem diversos tipos de indicadores que podem ser utilizados para a análise empresarial, destacando-se os de liquidez, endividamento, giro e rentabilidade.

Para o entendimento dos índices de liquidez, deve-se inicialmente compreender a estrutura básica do Balanço Patrimonial.

 

 

O Balanço Patrimonial

O Balanço Patrimonial é composto por três grandes partes:

  • Ativo: São os bens e direitos, controlados pela empresa, avaliáveis financeiramente e que gerem benefício presente ou futuro para a empresa. Os bens podem ser classificados como tangíveis (máquinas, estoques, terrenos, etc.) ou intangíveis (marcas, patentes, direitos de uso, etc.). Uma das formas de compreender os direitos é como sendo um bem da empresa que esteja temporariamente sobre posse de terceiros, como o contas a receber.
  • Passivo: Este grupo pode ser entendido como as dívidas ou obrigações exigíveis da empresa, ou seja, apresentam vencimento e poderão ser reclamadas pelos credores. Devido à esta característica, alguns sugerem que o mais adequado seria chamá-lo de passível exigível;
  • Patrimônio Líquido: Neste grupo são representados os recursos dos proprietários aplicados no negócio, os quais podem ter origem em novos aportes ou na retenção de lucros apurados em sua operação. Os valores aportados pelos sócios são registrados em uma conta denominada capital e os lucros retidos ficam provisoriamente na conta lucros acumulados até que seja apresentada uma destinação no final do exercício, a qual pode ser desde distribuição de dividendos até o aumento do capital da empresa.

Graficamente, o Balanço Patrimonial pode ser apresentado na estrutura abaixo:

Estrutura Simplif Balanco

Um ponto importante é que as contas orçamentárias pertencentes a cada grupo devem ser organizadas de acordo com o seu grau de liquidez (velocidade para se transformarem em dinheiro) e exigibilidade (prazo de exigência para pagamento).

Grupos de Contas do Ativo

O primeiro grupo de contas pertencente ao Ativo é chamado de Circulante. Nele devem ser classificadas as contas que serão liquidadas no curto prazo, ou seja, transformadas em recursos mais rapidamente. Alguns exemplos a serem citados são os valores de clientes com vencimentos menores que um ano, estoques e aplicações financeiras de curto prazo.

O segundo grupo registra as contas de longo prazo, sendo chamado de Não Circulante. Nele podem ser encontrados quatro subgrupos:

  • Realizável a Longo Prazo: podem ser observadas as contas que a empresa tem intenção de transformar em recursos financeiros, mas que levarão um prazo maior para que aconteça (mais de um ano). Alguns exemplos podem ser contas a receber de clientes com vencimento superior a um ano e aplicações financeiras com intenção de resgate maior que este período.
  • Investimento: o primeiro ponto de atenção neste subgrupo é que não deve ser confundido com aplicações financeiras. Na verdade, nele devem ser registradas as participações em outras empresas, que não se destinam à venda, além de outras aplicações que não tem relação com a atividade operacional da companhia, tais como, imóveis alugados a terceiros, obras de arte, etc..
  • Imobilizado: devem ser registradas as aplicações de recursos com caráter permanente e que tenham por objetivo a atividade fim da empresa. Ex. imóveis de uso, móveis, veículos, máquinas.
  • Intangível: devem ser registradas as aplicações de recursos em bens de caráter permanente, mas com característica não corpórea, tais como, marcas, patentes e softwares.

 

 

Grupos de Contas do Passivo e Patrimônio Líquido

Da mesma forma que o Ativo, o Passivo apresenta subdivisões. A primeira também é chamada de Circulante, a qual apresenta as mesmas características do Ativo, ou seja, devem ser classificadas as contas que serão, neste caso, exigidas rapidamente (até um ano).

A segunda subdivisão é o Não Circulante. Nele deverão ser classificadas as contas que serão liquidadas em períodos mais longos (superiores a um ano).

Por fim, há o grupo do Patrimônio Líquido. A característica deste é que suas contas não são exigíveis, ou seja, apesar de pertencerem aos sócios, apenas poderão ser retiradas da empresa após ao seu encerramento e liquidação dos compromissos.

Considerando todas as divisões descritas anteriormente, pode-se observar a seguinte estrutura simplificada para o Balanço Patrimonial:

Balanço Patrimonial Orçamento Empresarial

Os índices de Liquidez

Os índices de liquidez têm como objetivo avaliar a capacidade de pagamento da empresa através da comparação de grupos do balanço patrimonial, sendo os quatro principais:

  • Liquidez Geral:
    • Fórmula: Ativo Circulante + Realizável a Longo Prazo / Passivo Circulante + Passivo Não Circulante

Este índice compara os bens e direitos da empresa (Ativos) com suas obrigações exigíveis (Passivos) de maneira geral, ou seja, sem levar em consideração a distribuição de prazos ou momentos de ocorrência, conforme figura abaixo:

Liquidez geral

Caso o resultado desta razão seja de 1,4, o entendimento é que a empresa apresenta R$ 1,40 em ativos que tem intenção de serem transformados em caixa em algum momento para cada R$ 1,00 em dívidas  exigíveis.

Uma limitação deste índice é que os valores podem estar concentrados em momentos distintos, o que afetaria a interpretação da situação da empresa. Uma organização que tenha um índice de liquidez geral de 1,4, mas que apresente 90% de suas obrigações no curto prazo (vencendo em até um ano), se encontra em uma posição muito diferente de outra com o mesmo índice, mas com 90% de suas dívidas no longo prazo (vencendo em mais de um ano).

  • Liquidez Corrente
    • Fórmula: Ativo Circulante / Passivo Circulante

Este índice compara os bens e direitos da empresa (Ativos) com as obrigações exigíveis (Passivos), ambos exclusivamente de curto prazo, conforme figura abaixo:

Liquidez corrente

Caso o resultado desta razão seja de 1,6, o entendimento é que a empresa apresenta R$ 1,60 em ativos que tem intenção de serem transformados em dinheiro para cada R$ 1,00 em dívidas exigíveis, ambos no curto prazo (vencendo em até um ano).

Uma limitação deste índice é que os valores do ativo circulante podem estar concentrados em itens do estoque, afetando a interpretação da situação da empresa. Uma organização que tenha um índice de liquidez corrente de 1,6, mas que tenha 90% de seu ativo circulante em itens de estoque com baixo giro, apresenta uma posição muito diferente de outra com o mesmo índice, mas que tenha apenas 5% de seu ativo circulante em estoque.

 

 

  • Liquidez Seca
    • Fórmula: Ativo Circulante – Estoque / Passivo Circulante

Este índice assume uma postura mais conservadora em sua análise, pois desconsidera o valor em estoque para comparar com as obrigações exigíveis (Passivos) de curto prazo, conforme figura abaixo:

Liquidez seca

Caso o resultado desta razão seja de 1,1, o entendimento é que a empresa apresenta R$ 1,10 em ativos de curto prazo, além do valor em estoque, para cada R$ 1,00 em dívidas exigíveis de curto prazo (vencendo em até um ano).

  • Liquidez Imediata
    • Fórmula: Caixa e Equivalentes / Passivo Circulante

Este é o índice de liquidez mais conservador, pois compara o montante das obrigações exigíveis de curto prazo exclusivamente com os saldos de caixa e equivalentes (recursos imediatamente disponíveis, ou seja, depósitos bancários e aplicações financeiras conversíveis prontamente), conforme figura abaixo:

Liquidez imediata

Caso o resultado desta razão seja de 0,2, o entendimento é que a empresa apresenta R$ 0,20 em caixa ou equivalentes para cada R$ 1,00 em dívidas exigíveis de curto prazo (vencendo em até um ano).

A análise dos índices de liquidez pode ser realizada de maneira evolutiva, ou seja, comparando-se o desenvolvimento dos quocientes dos últimos períodos e das projeções orçamentárias. Neste caso, podem ser identificadas tendências de negócio que talvez evidenciem oportunidades ou problemas que requeiram ações de gestão.  Além disso, em diversos contratos de financiamento de longo prazo, estes indicadores são utilizados como covenants, o que reforça a sua importância no orçamento empresarial.

Outra forma de interpretar estes índices é de maneira comparativa ao mercado, ou seja, analisando os resultados das empresas que atuam no mesmo setor visando apurar se há alguma distorção na organização em relação as práticas do segmento.

Um ponto de atenção na análise destes índices, quando utilizados de maneira comparativa ao mercado, é que as empresas devem realmente atuar no mesmo segmento, pois, distintos setores podem apresentar padrões muito discrepantes. No caso, os resultados de quocientes de mineradoras podem ser consideravelmente distintos dos apurados em bancos.

A análise dos indicadores de liquidez é muito importante para a compreensão da capacidade de pagamento de uma companhia e deve ser realizada tanto com base nos relatórios contábeis quanto no orçamento empresarial para que seja possível compreender o resultado esperado da estratégia a ser colocada em prática pela empresa.

 

Sobre o autor:

Louremir Reinaldo Jeronimo é  Doutor em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas – FGV EAESP. Professor convidado dos cursos de MBA do FGV Educação Executiva e FGV In Company (Saiba mais)

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2 respostas »

  1. Parabéns prof.
    Como sempre o Sr. Disponibilizando conteúdos de fácil compreensão até mesmo aos que tem certa dificuldades no assunto.

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